Décimoquinto


Honestamente eu não entendo toda essa comoção que tomou conta dos blogs e twitters sobre a etapa de ontem do Tour de France.

Antes de mais nada, quero deixar bem claro que não gosto do Alberto Contador, nem do Andy Schleck. Por motivos completamente diferentes, o primeiro não inspira confiança desde sua suposta parceira com o Dr. Fuentes (Operação Puerto) e o segundo porque na minha opinião não é merecedor (ainda) de uma camisa amarela por não ser um ciclista completo. Se tivesse que torcer pra qualquer um deles, eu optaria pelo Schleckinho somente pelo apelo de ser jovem e mais nada.

O que não entra na minha cabeça é que nessa onda de “torcida” pelo mais novo, o Espanhol começou a ser crucificado como se ele tivesse arrancado a corrente da bicicleta de Andy Schleck de propósito, e depois atacado pra deixar o camisa amarela pra trás.

Era o fim de uma subida duríssima, a mais de 2000m de altitude, na parte final de uma etapa igualmente dura e já no decorrer a 3a semana de uma das provas mais duras que o homem já inventou. Nesse contexto, o “caçulinha” do pelotão e detentor da camisa amarela resolveu atacar perto da marca de 1km para o fim de uma montanha de HC.

Seu concorrente direto, Alberto Contador partiu logo atrás para neutralizar o ataque e “possivelmente” contra atacar. Nesse momento caiu a corrente do primeiro. Nunca vai se saber a causa, mas na minha (pouca) experiência, correntes não caem por acaso – pode ter sido falha do atleta na troca de marcha, má regulagem do equipamento, etc.. E, o agora anti herói espanhol, prosseguiu em sua empreitada, juntamente com outros dois candidatos ao pódio em Paris - diga-se de passagem. Terminou a etapa 39s na frente do Andy Schleck e tomou-lhe a camisa amarela.

Pronto... tinha sido cometido o maior pecado do mundo do ciclismo aos olhos de alguns.

O engraçado é que nessas horas, ninguém leva em consideração que aquilo é uma corrida de bicicletas, e que os mais de 200 atletas que largam na prova estão lá para competir, não pra tomar champagne em cima do selim no Champs Elisée.

Assim que eu assisti a etapa eu fiquei indignado com os ataques ao espanhol, e até comecei a “gostar” dele. Afinal de contas, Schleck não tinha sido derrubado por uma sacolinha e nem parado por um padre irlandês.

Fiquei me imaginando à 2000m de altitude, tentando neutralizar um ataque fulminante, no máximo das minhas forças e já completamente focado nisso. Sem oxigênio no cérebro e mirando naquela camisa amarela que eu tanto queria pra mim... A hora que eu visse meu oponente diminuir o ritmo o que eu ia fazer era “passar voando” por ele e “dar na cabeça” como diria o Celso Anderson (na gíria do ciclismo J). Sinto muito, mas nessa hora a última coisa que eu iria querer saber é o porque ele diminuiu... se caiu a corrente por “acidente” ou por problema de “inoperância”. É uma corrida, pelo amor de Deus... ele não é da minha equipe e é meu oponente direto. Depois, na linha de chegada ele me explica tudo!

Só pra lembrar, na etapa dos Pavês tanto Lance Armstrong quanto Alberto Contador furaram o pneu, o que nesse caso poderia ter sido considerado como uma fatalidade, ou não já que era esperado furos e tombos numa etapa que se dava grande parte em paralelos, sei lá... Mas ambos eram concorrentes diretos à camisa amarela juntamente com Andy Schleck, e ele não parou para esperar ninguém – a propósito, aquela margem de 31s que ele tinha sobre o Contador foi toda construída nesse dia!

Ainda podem falar sobre a ética do pelotão e suas "leis"...

O pelotão tem sua maneira de impor a ética, no caso de ontem, haviam mais dois candidatos ao pódio e que provavelmente vão tirar posição do Schelckinho no último CRI que estavam junto no “ataque”. Se fosse de senso comum o “erro” eles teriam forçado o espanhol à esperar, o que não aconteceu. E, se o resto do pelotão entender que ele foi desleal, com certeza ele vai acabar pagando por isso mais cedo ou mais tarde, uma vez que esses caras correm juntos a “vida toda”.

Alguns comentários excelentes sobre o tópico apareceram no Twitter entretanto:

Taylor Phinney (esperança americana sub-23) disse: “Sinto pena do Schelck pelo azar de hoje, mas também sinto pena do Contador pois vai ter que aturar um monte de ‘sh..’ por causa disso” e depois emendou “Mas se eu fosse um ás nas montanhas, excelente no CRI e com dois títulos do Tour eu provavelmente teria esperado”

E o grande Chris Boardman mandou: “Pergunta: estava Andy Schleck usando um ‘chain guard’? Se não foi uma opção dele, se sim como a corrente pode escapar?” e hoje mandou “Pergunta: se eu estou com a camisa amarela e opto por usar um super pneu leve que vai me dar vantagem mas vai furar toda hora, os outros devem ficar esperando por mim?”

Bom, é pra se pensar...

LODD

Aquela época do ano...


Como todo ano nessa época, o Giro já esquentou a temporada e o Tour de France está bombando na TV. Eu, como um amante do ciclismo já programei treinos diferentes, e estou renovando o estoque de empolgação por mais 365 dias J

Sábado começou em grande estilo, com um prólogo rápido nas avenidas de Roterdam. Lógico que eu fui treinar corrida cedo, e antes das 11h eu já estava grudado na frente da TV, com o meu Frances macarrônico assistindo à transmissão da TV5, pois aqui no país do futebol, mesmo estando eliminados ainda é copa do mundo e lógico que os 5 canais de esporte em território brasileiro continuam falando do Dunga, dos sonecas e zangados...

Prólogo de 8,9km comendo solto e idéias começaram à aparecer, baseadas nas dúvidas que eu tenho tido em relação à minha própria performance, e o jeito como as coisas foram acontecendo na minha “vida de atleta”.

Quando a gente pensa em uma prova de 23 dias, com etapas megaloquilométricas, grande variações de altitude, escaladas feitas pra alpinistas, vem aquela dúvida: o que um CRI de 10 minutos pode mostrar? Que diferença pode fazer?

Lógico, que algumas coisas não mudam... a moto Cancellara, colocou uma semana (sim 10 segundos nesse nível é coisa pra caramba) no segundo colocado, Tony Martin (que embora tenha nome de astro porto-riquenho é Alemão), um excelente contra-relogista, que em sua defesa pedalou em percurso muito mais molhado que o suíço e, que também colocou uma semana em cima do britânico David Millar, 3o colocado.

Até aí nada de surpresa, os 3 são especialistas nesse tipo de prova, e como bons especialistas, devem trabalhar para companheiros mais “completos” no decorrer da prova, com exceção do suíço que anda tão mais forte que o resto da população mundial que provavelmente vai defender sua posição na força bruta, e na minha opinião embora tenha alguma chance na classificação geral, são remotas.

O que surpreende é ver os favoritos pela briga geral figurarem entre os 10 primeiros.

O quanto completo um atleta consegue ser? Mr Lance Armstrong e Sr. Alberto Contador realmente são dignos dos títulos que conquistaram. Como conciliar capacidades tão diferentes? Potência, passo, subida, endurance??? É a questão que tem assombrado minha vida em cima da bicicleta ultimamente.

Para nós atletas normais, não dá pra conciliar tudo. Como eu tenho sentido na pele (e nas pernas) ultimamente, quando você foca em um evento específico, os outros sofrem... e se esquecidos podem até agonizar. E a verdade não é diferente, inclusive para campeões olímpicos e mundiais. Vide a performance do (também forte concorrente ao titulo) Bradley Wiggins – que até dois anos atrás seria o homem a ser batido numa prova como a de Sábado, pelo simples fato de ser especialista nisso. Campeão Olímpico e Mundial da prova de perseguição este era o único que talvez tivesse credenciais para bater a moto-cancellara, mas não chegou nem perto. Mostras que todo o trabalho realizado para torná-lo um ciclista “completo” mexeu naquilo que ele tinha de melhor.

Muitas coisas à se pensar e aprender com tudo isso. Inclusive várias dicas de treinamento para “migrar” as distancias no triathlon podem ser tiradas daqui... Enquanto isso eu brigo com as minhas dúvidas, e provavelmente terei muito mais que escrever sobre isso.

O que eu vi durante a prova:

Lance Armstrong está de volta. Eu que fui um grande critico do seu retorno ao ciclismo hoje dou a cara à tapa. Ele ir bem num CRI de 9km não quer dizer nada... ele podia até ter tomado um minuto do tempo do Cancellara que não ia fazer diferença. Ele em cima da bike é que me impressionou. Voltou a ser o Lance dos sete títulos, uma peça só. Alem de estar magro ele provou que está forte.

Família Schlek: Infelizmente esses dois vão ter que nascer de novo pra aprender a fazer um CRI. As vezes eu, na minha arrogância acho que até seria capaz de brigar com eles, de tão ruim que eles são. Lógico, que como eu disse antes isso pouco conta agora... mas a história mostra que quem quer ser campeão do Tour precisa saber se defender num CRI.

A história do motorzinho na bike: Bom, a UCI abriu os olhos pra mais essa armação e andou “escaneando” as bikes após o prólogo. Fabian Cancellara aproveitando a fase disse “se quiserem achar motor, é melhor escanear minhas pernas” J. Pra quem larga com os seguintes dizeres no capacete “World & Olimpic Champion” além da camisa litrada de campeão do mundo, pra que motorzinho? Só isso já valem os 50w extra!

Com certeza serão 3 semanas de muita pauleira e esse ano eu acho que o resultado vai ser muito “apertado” se os grandes nomes passarem pelos tombos da primeira semana.

LODD

The good, the bad... the UGLY!


O Long Distance de Ubatuba era pra ser minha prova “alvo” neste primeiro semestre, mas graças à (des)organização do esporte no país do futebol, a prova deixou de acontecer.

Como este ano eu estou me recusando em participar do campeonato mais caro por quilometro rodado no triatlon nacional e que tem o maior desrespeito com os atletas que dele participam, resolvi correr o campeonato brasileiro de contra-relógio que, para a elite este ano à exemplo do ano passado aconteceu na bela cidade de São Carlos no último sábado, na distância de 32km.

The Good:

Cheguei sexta-feira em São Carlos, e aproveitei o jogo da seleção pra ir rodar no percurso. Embora a estrada fosse maravilhosa e com um asfalto perfeito, o percurso parecia mais duro que o antecipado e bastante técnico, sem contar o vento fortíssimo que soprava na hora que eu rodei por lá. Mesmo assim fiquei muito empolgado em fazer uma boa prova.

Depois de conhecer o percurso e analisar a concorrência cheguei a conclusão que um Top 20 seria um resultado muito bom... Lembro ainda de brincar com um amigo ao telefone naquela tarde dizendo: “Se eu ficar entre os 20 vou tomar todas pra comemorar, se ficar entre os 10 penduro o tênis de corrida J”

Sábado chegou, o vento não deu trégua, e depois de 56 atletas completarem o percurso eu me classifiquei em 19o. Bati alguns atletas bem mais fortes e que jamais achei que fosse bater, mas também perdi para atletas que eu não esperava. Foi um resultado pra me deixar bastante feliz, a não ser...

The Bad:

O lado ruim de ter na bike uma parte de mim, é que quando ela me manda o recado não tenho como me esconder.

Ainda lembro dos momentos antes da largada, eu estava alinhando na rampa de largada, e um dos comissários da UCI que era Uruguaio estava com um olho em mim e outro na tela do computador assistindo ao jogo do time dele... maldito futebol!

Contagem regressiva e larguei... desci a rampa forte e pedalei em pé por uns 100m pra embalar.

& The Ugly:

Assim que sentei na bike e clipei, ela “olhou” pra mim e “disse”: Hoje não vai dar!

E aí começou uma batalha que durou quase a prova inteira... “Como assim hoje não vai dar?” continuei indignado “Cala a boca e anda, acelera”

“Faz força que eu acelero” retrucou a minha companheira de longas batalhas

“To fazendo, muita força!” Eu, agora indignado comigo mesmo

“Então faz bem feito, porque daqui não tá parecendo!”

Putz... e foi assim até os últimos 5km. Só então entramos num acordo e a coisa começou a fazer algum efeito positivo. Fechei os quase 33km de prova (no meu powertap) em 44’24” o que tava marcando 44kph de media pouco antes de cruzar a linha.

No dia anterior, após andar no percurso tinha certeza que chegaria na casa do 45kph e num dia MUITO bom perto dos 46. E que o vencedor, como no ano passado, faria algo perto dos 47kph. 44kph foi muito abaixo do esperado, e isso ficou claro em menos de um minuto após eu cruzar a linha quando o Breno Sidoti cravou tempo na casa dos 41 minutos!

A briga até o fim foi emocionante, com Padaria Real, Pinda e Scott derrubando os tempos um atrás do outro e com o Luizão da Scott São José detonando no final com 40min12seg e incríveis quase 48kph de media!


Aprendizado...

Foi a primeira vez que eu participei de um CRI sem ter uma equipe de apoio junto, talvez isso tenha feito alguma diferença mas talvez também tenha sido bom, pois do jeito que eu me encontrava a probabilidade de eu parar e jogar a bike no carro ia ser grande.

Competir com a elite nacional, o buraco é bem mais em baixo e bem mais fundo. Não dá pra aparecer lá e achar que dá pra tirar um coelho da cartola. Todo mundo tem coelho e tem cartola! Num percurso como aqueles, a força bruta não compensa a falta de técnica, todos eles tem muita técnica e força bruta de sobra. Pra se ter uma idéia, algumas curvas que eu achava que estava voando acima de 50kph, eles faziam acima dos 70kph!

E a última grande lição: treino é tudo! Desde que eu voltei de Dubai eu tenho dado um “jeito” nos treinos, primeiro correndo com uma preparação “nas coxas” pro paulista de pista, depois tentando tirar o atraso pra correr um 1/2IM, e por último “polindo” para esse brasileiro... agora, a ordem é voltar pra prancheta em branco, fazer alguns testes e tirar as próximas 6-8 semanas pra colocar o treino nos eixos e encaixar uma boa rotina pra poder ver alguma evolução de novo.

LODD

Efeito Passione?


Tinha tudo para ser mais um dia normal de treinos...

Acordei cedo. Tomei meu café da manhã. Me enchi de roupa (porque aqui na região ta fazendo um baita frio), e saí de casa em direção ao meu treino de subida favorito.

No caminho encontrei com minha parceira de programas de índio e partimos para mais uma sessão de pedal nas subidaiadas da região, até que psssss – pneu furado.

Até aí, nada de mais. Quantos ciclistas e triatletas não devem ter passado por esse mesmo roteiro na manhã dessa quinta-feira?

O inusitado começou a partir daí. Assim que furou o pneu, parou um carro da guarda municipal com uma senhorita muito educada e prestativa na direção:

- Tudo bem com você? Perguntou ela

- Tudo - respondi – foi só um pneu furado!

- Precisa de alguma coisa?

Putz... se eu não tivesse vestido que nem um palhaço eu já ia achar que a guardinha tava me cantando...

- Não... é rapidinho pra trocar – respondi

- Sua amiga está subindo aí – disse mais uma vez a prestativa guarda.

- Eu sei, a gente ta treinando junto. Obrigado.

Não demorou muito e chegou a Tá Saab, dizendo que a guarda tinha falado pra ela que eu estava parado logo a frente com problemas no pneu.

Na hora eu até parei de encher o pneu, dei uma chacoalhada na cabeça pra ver se eu realmente estava acordado... Estava me sentindo num outro país e não no bom e velho Brasil, onde um ciclista parado na estrada não passa de um “problema para o tráfego”.

A Tá continuou o treino enquanto eu finalizava a troca. Nesse meio tempo apareceu o Dani Chapô e parou pra ajudar e em menos de um minuto um carro da concessionária da estrada...

- Tudo bem?

- Tudo... foi só um pneu furado!

- Precisa de alguma coisa? Ferramenta?

- Se o senhor tivesse uma bomba de pé eu agradeceria (risos)

O cara não entendeu a brincadeira e ficou lá até eu garantir que estava tudo bem. Só faltou a hora que eu subi na bicicleta ele sair empurrando como assistência numa prova de ciclismo (na Europa).

Depois, conversando com a Tá sobre o episódio eu cheguei a conclusão que isso já é um reflexo positivo da novela das 8.

Independente dos absurdos da trama e até mesmo do galã ser um dopado, trapaceiro e sem vergonha, o ciclismo finalmente virou esporte no Brasil. E nada como um Cauã Raymond, namorado da Grazzi para fazer o pais do futebol começar a enxergar outras modalidades esportivas.

Só espero que o mal caráter latente no personagem, aliado à falta de escrúpulos não jogue isso por terra para que na próxima vez que meu pneu fure na estrada, a guardinha não passe gritando “bem feito seu drogado, sem vergonha”!

Por enquanto... obrigado Cauã. E muito obrigado também à gentil GM de Louveira e ao prestativo funcionário da Rota das Bandeiras.

Vamos aproveitar a maré boa pra treinarmos com segurança!

LODD

Retorno


Após um período sem postagens, devido parte à merecidas (mas não programadas férias J) e parte à falta de inspiração, o titulo desse post acaba sendo bem sugestivo.

Primeiro porque após um longo tempo, em 2011 estarei de volta às provas de Ironman. Prova essa que já foi minha grande fonte de motivação no esporte e que acabou perdendo um pouco de espaço. Diferentemente das provas curtas, principalmente as de ciclismo de pista que eu tenho sido motivado por resultados e conquistas, retorno à prova onde resultados não passam de “completar a prova” e conquistas não passam de “pessoais”. Excelente oportunidade para colocar a prova o ego e a humildade. Coisa difícil para muitos atletas, principalmente aqueles movidos por “performance”.

Segundo porque esse post pode acabar sendo um “loop” que remete ao primeiro deste blog, há mais ou menos um ano atrás quando, após minha participação no paulista de ciclismo de pista resolvi debutar no mundo dos “escritores (não tão) anônimos”.

Este último final de semana participei pela segunda vez do campeonato paulista de pista em Americana, que foi realizado juntamente com o brasileiro de juniores. Mesmo estando muito mais experiente e com muito mais bagagem, a emoção não ficou por menos.

Como é de conhecimento de quem acompanha esse blog, desde março deste ano eu faço parte da equipe Lidra Americana de ciclismo de pista, e defender as cores de uma cidade, dentro da cidade e ainda por cima brigando com outra equipe da mesma cidade foi uma experiência única.

Já que 99% das cidades do Brasil não apóiam nenhuma equipe de ciclismo, a cidade de Americana resolveu fazer a parte dela em dobro e mantém duas equipes de ciclismo, uma de estrada e outra de pista. Mas de repente essas duas modalidades resolveram “se bicar”... L

Eu fui pra lá fazer a única prova que eu sei fazer mais ou menos bem, a perseguição individual. Sexta-feira, dia 11 era minha vez. O nível da competição estava mais alto que o do brasileiro (o que não é de se assustar) com nomes como Francisco Chamorro da Scott, Bruno Tabanez e William Solera da UAC Americana, Patrick da Sundown São Caetano, além dos que já freqüentam de costume esse tipo de prova. E isso obviamente mexeu com os meus nervos... Competir, agora em casa desta vez causava uma pressão extra. Uma porque seria minha primeira competição como membro oficial da equipe válida para o ranking e segundo porque eu não estava nem perto do preparo que me encontrava no brasileiro. Mas como disse uma grande mente: “Tenho que travar essa batalha com o exército que de fato possuo!”

Tirando toda a falta de organização e o infinito desrespeito aos atletas, larguei. Com menos de dois quilômetros de prova sentia aquele gosto de sangue característico dos metros finais... paciência, eu sabia que o corpo não estava no auge por isso tinha que apelar pro sofrimento. Sofri, mas dei tudo... e cravei um excelente tempo 5’03” sendo que tinha baixado mais de 7 segundos do tempo do ano passado (o que nos 4km da perseguição é muita coisa) e num dia de muito vento.

Os outros foram e meu tempo parecia muito bom. Todos girando acima dos 5’10”, inclusive a moto argentina (Chamorro). No final deu o Piá com o 1o tempo (4’59”) o Patrick, campeão brasileiro de CRI sub 23 com o 2o tempo (5’02”) eu em 3o e o Bruno Tabanez da UAC Americana com o 4o tempo. Conclusão, no Sábado a disputa pelo bronze ia ser “domestica” entre eu e o Bruninho.

Sábado chegou, e assim que eu cheguei em Americana já senti o clima tenso. Pra galera da cidade, a disputa pelo bronze tinha mais valor que a do ouro. Se eu tivesse passado em 2o lugar não ia ter tanta torcida.

Eu sabia que podia ser melhor, já tinha sido 6 segundos mais rápido na tomada de tempo... mas do outro lado da pista estava Bruno Tabanez, líder do ranking brasileiro de estrada de 2009.

Minhas preocupações eram muitas. Pela primeira vez eu estava abalado e sem saber muito o que esperar. Ele provavelmente ia sair com tudo e usar toda a força de sprintista pra me pegar no começo da prova e acabar com ela antes dos 4km (vale lembrar que nas finas da perseguição, quando um ciclista é alcançado pelo outro a prova acaba, com o primeiro desclassificado por quem o alcançou). Após muita conversa com amigos e com os mais experientes da equipe consegui acalmar e focar de novo. O importante era seguir o plano!

Deu a largada, e como esperado ele saiu fuzilando... tirou mais de 3 segundos na primeira volta. Como o programado eu sai mais lento e fui crescendo a partir da segunda volta, equilibrando o jogo e assumindo controle a partir da terceira volta. Agora o que não era programado, muito menos esperado foi sair de uma curva com 2km e prova e ver ele na minha mira no fim da reta!!!! Ali a prova tava ganha, aliviei um pouco e pensei em administrar sem me desgastar (pois ainda tinha mais provas pra correr). Mas aquele “instinto assassino” falou mais alto... Apertei o ritmo e peguei ele na marca dos 3km, na frente da arquibancada, e a galera vibrou como se fosse gol do Brasil!

Tava forte e me sentindo MUITO bem, nos 3km eu estava com passagem pra fechar a prova abaixo dos 5min. Impressionante como as coisas mudaram de um dia pro outro. Acho que na próxima prova vou dar um tiro de 4km um dia antes pra “encaixar” as pernas J

No domingo fechei minha participação no campeonato correndo a prova de scratch, que é basicamente uma prova de circuito onde largam até 30 atletas e ganha quem cruzar a linha de chegada primeiro. A única diferença são as paredes, a relações fixas e a falta de freio... resumindo, é ASSUSTADOR. Mas fiz meu papel de “fundista”, fiquei buscando todos os ataques e assim o Leandro, meu companheiro de equipe conseguiu estar bem pro sprint final e chegou em segundo somente atrás do Chamorro.

No final a nossa equipe conquistou o titulo geral da competição e foi a equipe campeã paulista de 2010!

Parabéns aos grandes Estevam, Leandro, Reiner, André e Caio pela excelente performance!

Preparando para o Paulista de Pista

Sexta feira tem Perseguição Individual e Sábado por equipes.

Treinando largada do quarteto...


Discutindo estrategia...


Estevam puxando o Motopace...


@ 70kph :-(

Potência 301

Zonas de Intensidade e Treinamento

Passada toda aquela coisa com equipamento, porquês, siglas, termos técnicos e etc.. O que mais interessa é: Como usar esse bichinho (que custou uma fortuna) para melhorar?

Conheço alguns atletas que têm medidores de potência, mas poucos que realmente usam. Você pode comprar um e passar o resto da sua vida atlética assistindo números “pipocarem” na sua frente e falando para os outros que fez isso ou aquilo de potência, ou pode aprender a fazer esses números aumentarem.

Para efeitos de treinamento de ciclismo, 6 zonas de intensidade são derivadas a partir do FT de um atleta (* por isso a importância de monitorar esse número com uma certa freqüência e alterar as intensidades conforme necessário). São elas

Leve / Recuperação: abaixo de 55% do FT

Endurance: 56% à 75% do FT

Endurance Intensiva (ou Tempo): 76% à 90% do FT

Limiar (FT): 91% à 105% do FT

VO2: 106% à 120% do FT

Capacidade Anaeróbia / Explosão: acima de 120% do FT

Leve / Recuperação: Como o próprio nome sugere, serve primariamente para aquecimento, soltura ou intervalos entre tiros. Treinos regenerativos também deveriam ser feitos nessa intensidade, mas a natureza de um treino “regenerativo” é tal que se um atleta precisar de algo para guiá-lo é porque está fazendo errado. Ciclistas de ultra-distância, pela natureza do treinamento podem se beneficiar de treinos INSANAMENTE longos nesta intensidade.

Endurance: Treinos longos devem ser realizados nessa intensidade para aumento de limiar Aeróbio. Nesta intensidade devem ser realizados os treinos de base, ou de volume específico – dependendo da prova alvo. Não é necessário, nem mesmo desejável que 100% do tempo de um treino de base/endurance seja realizado dentro da faixa, mas grande parte dele deve ser feito nessa “zona” evitando grandes períodos de tempo nas zonas de Limiar e VO2. Um treino de base bem realizado é aquele em que a potência não oscila muito e a media da potência acaba ficando entre 60-65% do FT. Dependendo do atleta variam de 2 à 6 horas de duração, e ainda podem ter trechos específicos dirigidos à limiar ou VO2 dependendo da fase do programa de treinamento.

Endurance Intensiva: Muito conhecida como TEMPO (do inglês). Durante muito tempo foi chamada de “Gray zone” ou zona cinza, devido aos riscos envolvidos em se passar muito tempo em tais intensidades, uma vez que não é leve o suficiente para treinos longos de base, nem forte o suficiente para tiros visando aumento de limiar. Treinos nesta faixa de intensidade, também trabalham o limiar aeróbio, mas em muita quantidade podem levar ao comprometimento do programa de treinamento. O grande problema para nós triatletas é que cai bem na intensidade de 1/2IM para a maioria. Podendo ser intensidade de olímpico para atletas menos experientes e chegar a intensidade de IM para os profissionais e übberbikers de plantão. Exemplo de treino seria um treino de 2h30min com 90min na intensidade, a hora restante seria dividida entre aquecimento e soltura; pode-se também colocar séries de 20-30 minutos em trechos de treinos longos específicos.

Limiar ou FT: Esse é na minha opinião a alma dos treinos de CRI / Triathlon, se eu tivesse somente um dia da semana pra pedalar, com certeza seria pra treinar nesta intensidade. São os famosos treinos de tiros, feitos para aumentar o Limiar Anaeróbio e a potência específica em contra-relógio. São tiros que podem variar de 8-20min com intervalos suficientes para tomar uma água, respirar fundo, concentrar e partir para o próximo. Totalizando não mais que 40-45min de trabalho, por exemplo: 3x12min c/ 3min descanso ou (meu preferido) 2x20min c/ 5min descanso. Importante de treinos nesta faixa de intensidade é lembrar que não precisa “quebrar recorde” a cada treino, se os tiros forem realizados à 92% do FT tem o mesmo efeito que se realizados à 104%. Portanto, é um treino duro com certeza, mas nada de INSUPORTÁVEL.

VO2: falando em insuportável... Infelizmente essa é a zona da DOR. São treinos que visam o aumento da potência de VO2 de um atleta e indiretamente o aumento do VO2 (não é direto uma vez que eficiência mecânica acaba entrando na equação também). Devem ser realizados com muita cautela e não se prolongarem muito na periodização, pra mim de 4-6 semanas de treinos específicos de VO2 são suficientes para se atingir um pico. São séries de treinos que quanto mais “curtas e grossas” melhor. O tempo total de “trabalho” gira em torno de 20min com um máximo de 25min, e os períodos de recuperação são de 1:1 (trabalho x descanso), exemplo de séries de VO2: 6x3min (3min), 5x4min (4min) e o meu preferido 5x5min (5min).

Capacidade Anaeróbia: Honestamente a não ser que você seja um especialista em quilômetro contra relógio em pista ou esteja treinando para alguma prova em que picos de potência altíssimos de curta duração (não sprint) sejam necessários eu sugiro não mexer muito com isso. São séries curtas de 1-2min de MUITA potência com recuperação completa. Usei algumas vezes para “polimento” pra provas de perseguição, algo do tipo 8x2min com 5min de recuperação. Neste caso específico não adianta querer dosar potência, dói demais pra alguém conseguir reparar em números. O que é feito normalmente é estipular uma media para o tiro e parar caso não consiga atingir tal media em 2 tiros seguidos. O problema com esse tipo de treino é que compromete demais o andamento dos outros treinos na semana, portanto “se” necessário, procure fazer em um dia que seja seguido de um ou dois dias leves.

Como usar toda essa informação acima e distribuir pelos ciclos de treinamento, honestamente eu não sou qualificado para discutir. Algumas dicas que eu aprendi na “marra”, no entanto podem poupar alguns “dissabores” pelo caminho J.

Cuidados nas distribuições de intensidade: O maior erro em qualquer programa de treinamento é o de passar muito tempo treinando em intensidades intermediárias. Um programa bem elaborado usa um pouco de tudo, o importante é prestar atenção e fazer das partes “leves”, suficientemente leves para que os trechos duros sejam realmente DUROS. O maior erro que eu já cometi foi o de querer treinar “uma marcha acima” o tempo todo. Não há melhora nisso.

Excesso de treinos leves: Na verdade, são raras as vezes que eu subo na bike pra “girar” sem um objetivo específico. Simplesmente eu não tenho tempo pra isso. Treino ciclismo 3 vezes por semana e uma media de 6h na semana. Isso não me dá espaço pra ficar “passeando” de bicicleta por aí. Salvo os treinos de véspera de prova ou pós prova, cada dia em cima da bike tem um propósito específico. Quanto àquele treininho “extra”, só pra girar e fazer “volume”, eu passo. Ganho muito mais em ficar dormindo, trabalhando ou com a família. No começo de temporada eles existem com uma certa freqüência, mas são utilizados para corrigir técnica, arrumar posicionamento e se adaptar à novos equipamentos.

Subestimar as intensidades: Eu falo isso várias vezes porque esse é um erro grave – Os ganhos dos treinos com potência, vêm em se treinar nas intensidades corretas, não é treinando mais forte e querendo “bater recorde” todo treino que se melhora. Treina-se nas zonas estipuladas, pelos tempos estipulados... uns dias parecem fáceis e outros difíceis, mas é se mantendo no “programa” que a mágica vai acontecendo, e pra saber se está ou não funcionando é que existem os testes e obviamente as competições J.

Falta de monitoramento do FT: é incrível, mas tem gente que tem medo de se testar e ver como andam as coisas. O FT é um número que varia com uma certa freqüência, e vai respondendo ao treinamento. Não, ele não sobre sempre, e infelizmente ele varia pra baixo mais do que gostaríamos. E por isso monitorar pelo menos a cada 6 semanas é o ideal. Para garantir a fidedignidade dos números, cruze as informações dos treinos com a dos testes. É monitorando esse numerinho que conseguimos dosar a carga correta de treino para continuar melhorando sempre.

Falta de auto-conhecimento: não é porque sua planilha manda fazer 4 tiros de 10min a 300w que isso deva ser realizado de qualquer maneira. Não somos máquinas, e como minha coach costuma dizer, o papel aceita qualquer coisa e não leva em consideração fatores externos. A dica aqui é se conhecer, as vezes diminuir os tempos mas manter a intensidade produz o efeito, outras manter os tempos em intensidades menores... e em alguns casos, carregar o carro e ir embora pra casa é a melhor opção (por mais duro que isso possa parecer e eu sei porque já tive minha cota de “abortos”).

Bom, tentei resumir bastante nesses últimos 3 posts as informações básicas para iniciar no treino com potência. Tem MUITO mais coisa, e talvez um dia desses saia um “apêndice”.

Bons treinos!